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A Rússia e a documentação: das máquinas de escrever às acusações de roubo

quarta-feira, 13 de junho de 2018

 

Chegou a hora! Nesta quinta-feira (14), começa a 21ª Copa do Mundo, pela primeira vez sediada na Rússia. Essa nação impressiona a muitos por sua história, sua literatura, seu tamanho — é hoje o maior país que existe, ocupando sete fusos horários seguidos —, mas nem tanto pelo seu desempenho em campo — nunca galgou posição acima do 18º lugar numa Copa, embora a antiga seleção soviética tenha conquistados medalhas, inclusive de ouro, em Olimpíadas. Futebol à parte, a Rússia nos últimos anos tem aparecido bastante no noticiário por causa da sua relação com o universo da documentação.

 

O Serviço Federal de Segurança de lá anunciou, há cinco anos, que investiria o então  equivalente a R$ 30 mil para comprar máquinas de escrever, no que foi descrito como um processo de “desdigitalização”. Ou seja, a área de inteligência do governo queria substituir todos os documentos digitais e online por impressos, arquivados “à moda antiga”. Naquela época, crescia o receio de que plataformas como o WikiLeaks pudessem vazar dados estratégicos da nação, gerando problemas nas suas relações internacionais.

 

Um ano depois, em 2014, começaram a se multiplicar notícias sobre hackers russos, que estariam roubando bilhões — sim, bilhões — de senhas de sites do mundo todo, ameaçando empresas e governos de outros países. A Rússia (ou pelo menos parte de seus cidadãos) continuou sistematicamente a ser acusada de cometer esse tipo de crime virtual, a ponto de o tema ser explorado politicamente com frequência. Até os dias de hoje.

 

Mas nada disso parecia dar pistas do que estava por vir. Desde as últimas eleições estadunidenses, no fim de 2016, começaram as suspeitas de que a Rússia teria interferido no processo eleitoral dos EUA, favorecendo a vitória do empresário republicano Donald Trump. O presidente russo, Vladimir Putin, sempre reitera que nada disso é verdade. Mas as ligações entre a família Trump e a elite russa apontadas pela imprensa internacional reforçam a possibilidade de interferência nos EUA por parte da Rússia. Como isso teria ocorrido?

 

É aqui que a situação se complica um pouco mais. As principais ações que teriam sido orquestradas pelos russos — supostamente apoiados por Trump — consistiram em vazar informações constrangedoras sobre a rival do empresário naqueles eleições, a democrata Hillary Clinton, e em espalhar notícias falsas pelas redes sociais para atingi-la e/ou para enaltecer o republicano. Todo o episódio gerou uma discussão, ainda em andamento, sobre confiança nas informações que circulam online, e sobre como empresas e governos podem tornar realmente claro para o público o que fazem.

 

O problema não se restringe aos EUA nem à Rússia, já tendo sido noticiado que ações similares ocorreram nas últimas eleições no Brasil, por parte dos mais diferentes partidos. Como num longo e intrincado romance de Dostoiévski, essa questão desafia as organizações atualmente e torna a adoção de regulamentos e práticas inteligentes para acervos de documentos (digitais ou não) ainda mais necessária.

 


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