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Em 2020, digitalização deixou de ser tendência e virou imperativo

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020


No futuro, o ano de 2020 há de ser lembrado por inúmeras razões mundo afora. Para o universo corporativo, o principal legado desse período marcado pela pandemia de COVID-19 foi a aceleração digital.

Até o ano passado, ninguém discordava de que a digitalização era uma tendência irreversível. O que mudava era a velocidade e a efetividade da sua implementação: mais rápida em alguns setores do que em outros, com mais infraestrutura em alguns países do que em outros etc.

Agora, diante das restrições impostas pelo surto do novo coronavírus em quase todo o globo, o digital deixou de ser tendência e virou algo a ser feito, literalmente, “para ontem”. Os lockdowns e as medidas restritivas limitam a locomoção de clientes e de executivos, esvaziam o bolso do consumidor e tornam os negócios mais rarefeitos, tanto entre clientes finais e empresas quanto entre as próprias empresas.

De acordo com pesquisa feita por uma plataforma de busca e comparação de softwares chamada Capterra junto a 409 funcionários de pequenas e médias empresas (PMEs) de múltiplos setores de todo o Brasil, cerca de 47% das PMEs da amostra não tinham nenhum plano de gestão de continuidade de negócios e tiveram de alocar recursos financeiros do dia para a noite para continuar funcionando e se adequar à nova realidade. Além disso, 63% dos responsáveis pela compra de softwares nessas empresas disseram que seus negócios terão de adotar novas ferramentas em resposta à pandemia.

Um exemplo notável dentre tantos foi o Magazine Luíza, um varejista tradicional que, embora já tivesse operações online, pisou no acelerador e se sobressaiu em meio à crise. Tanto o MagaLu quanto outras empresas brasileiras, nativas digitais ou não, têm investido mais do que nunca no chamado omnichannel – que nada mais é do que criar e manter diversos canais de venda, entre espaços digitais e lojas físicas.

Entretanto, ao mesmo tempo em que a iniciativa privada de modo geral literalmente corre atrás do prejuízo, as circunstâncias excepcionais também expõem os gargalos para a digitalização no Brasil.

Um estudo assinado pela Cisco e pela Deloitte sustenta que, sim, projetos de digitalização que já existiam foram acelerados e aqueles que não existiam foram finalmente criados, enquanto que políticas públicas pró-digitalização já existiam e puderam ser aproveitadas neste momento crítico. Apesar desses pontos positivos, a lista de entraves é bem mais longa: sistemas eletrônicos e bases de dados governamentais que não conversam entre si; o fato de que boa parte da população ainda não tem pleno acesso a recursos digitais; os desafios à privacidade, a despeito da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD); os orçamentos bem mais limitados das administrações de pequenos municípios; e a persistência de burocracias impostas por algumas leis em vigor desde a era pré-digital.

Qual é, então, a lição que 2020 deixa para os empresários brasileiros? Por um lado, fica clara a necessidade de seguir se reinventando, de se usar aquilo que empresários têm de mais arrojado – seu empreendedorismo – para buscar soluções criativas de curto prazo enquanto reprogramam a rota de seus negócios a médio e longo prazo de acordo com o novo paradigma.

Por outro lado, é evidente que ainda é preciso um trabalho conjunto da sociedade brasileira para que o digital se torne uma realidade plena para todos, e não só para uma massa de privilegiados. Isso tende a gerar um ambiente de competitividade igualitária que beneficiará tanto empresários quanto clientes.

A transformação digital foi acelerada pela pandemia, mas só será completa quando cidadãos, a iniciativa privada e as lideranças políticas se unirem em torno de um projeto comum de inclusão e desburocratização.


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