Blog

Negócios

Por que a indústria da carne está fazendo um papelão — e como evitar que a sua empresa faça o mesmo

quarta-feira, 22 de março de 2017

 

Enquanto o governo tenta conter danos num setor-chave para a economia brasileira, as investigações da Polícia Federal (PF) que apuram fraudes, subornos e violações sanitárias no setor pecuário ganharam contornos internacionais nesta segunda-feira (20/3).
A China anunciou que vai suspender temporariamente a importação de carnes do Brasil. A Coreia do Sul chegou a comunicar que faria algo semelhante, mas voltou atrás. O Chile também anunciou uma suspensão temporária na importação de carnes, autoridades dos EUA informaram que estão “monitorando a situação” e a União Europeia declarou que vai barrar a compra de carnes de frigoríficos atingidos pela Operação Carne Fraca.
As carnes bovina, suína e avícola compõem um grupo equivalente ao terceiro maior produto de exportação do Brasil, atrás apenas da soja e do minério de ferro. Elas conquistaram o mundo e se tornaram sinônimo de qualidade em mais de 150 países.
Porém, em dois anos de apuração para a operação, a PF fez perícia em alimentos produzidos por frigoríficos em apenas um caso: produtos da Peccin Agro Industrial, empresa curitibana responsável por alimentos da marca Italli. As demais empresas acusadas estão sob suspeita por causa de delações e telefonemas grampeados. Os 21 frigoríficos investigados exportaram, em 2016, cerca de US$ 120 milhões, volume que representa menos de 1% do total exportado pelo setor no ano passado (US$ 13,5 bilhões), de acordo com levantamento do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.
Mesmo com uma apuração já sendo apontada como imprecisa, com um alcance bastante limitado no universo da oferta de carnes brasileiras e com alguns países compradores já dispostos a relativizar a situação, o impacto da Operação Carne Fraca é amplo e, aparentemente, duradouro. O escândalo envolve a corrupção, por parte de algumas empresas, de fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para que “deixassem passar” produtos de má qualidade, muitas vezes vencidos há meses e com aparência disfarçada por substâncias vetadas.
O que poderia ter sido feito de diferente para frear a avalanche de cobranças e reações, em sua maioria justificadas?
À parte a honestidade que se espera tanto de agentes do governo como das companhias privadas, ter os documentos organizados permite ações de transparência em momentos de crise.
Nas horas em que as dúvidas surgem, com ou sem razão para que surjam, dispor de maneiras de provar o que foi feito corretamente é uma maneira de, por exemplo, fazer a sua empresa se desenvencilhar de um grupo de companhias sob ataque. Em momentos assim, quem tem agilidade e capacidade para mostrar “o preto no branco” para os incertos se mostra zeloso dos processos de seu negócio. O governo pode convidar embaixadores para uma ida à churrascaria, no entanto as empresas também devem se mobilizar com a urgência e a disciplina que o episódio exige.
Será difícil recobrar a confiança dos consumidores, tanto os do Brasil como os do restante do planeta. Mas as marcas que tiverem investido em organização da informação e que consigam mostrar que adotam práticas corretas, higiênicas e em acordo com as exigências globais irão estancar ou talvez até reverter o fluxo de dúvidas e assombros que se acumulam sobre elas agora.